segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A era das ditaduras




Hoje um amigo, estudante de filosofia, me procurou.  Disse que estava fazendo um estudo sobre a violência moral  e toda a realidade que nos cerca atualmente no mundo que vivemos. Robson me contou que precisava publicar seu artigo em algum site ou blog e que gostaria que fosse publicado aqui no blog. Fiquei feliz ao saber que gostaria que fosse publicado aqui, e claro, é um prazer para mim estar trazendo esse artigo que considero uma leitura muito importante para todos nós. Confere aí!


"Farei duas perguntas que são óbvias: Em nosso país, estamos em guerra ou em paz? Eis a primeira. Nossos olhos podem ver apenas aquilo que é material e possui matéria e forma? Eis a segunda. Até este momento você balançou a cabeça, deu aquele sim interior e concordou comigo. Ao você concordar comigo que “oficialmente” estamos em paz em nível nacional, eu lhe questionaria se “paz” é uma palavra que se refere somente ao aspecto externo da vivência social ou pode se referir aos movimentos mais subjetivos de cada pessoa humana? Ao você concordar comigo que olhos podem ver apenas aquilo que é material e que possui matéria e forma,eu lhe questiono o que fazer para conhecer e trabalhar coisas  ou questões que nos atingem e que não podem ser vistas pelos órgãos responsáveis pela nossa visão?
Em relação ao primeiro questionamento, o fiz pelo fato de que, ao contrário do Oriente Médio, não há pessoas sendo massacradas na rua em nosso país, mas há pessoas sendo massacradas virtualmente, psicologicamente, onde se mascara a cultura do conhecimento na cultura da informação, como se informação e conhecimento fossem a mesma coisa, etc.
 Quando um brasileiro, ao ligar seu rádio e ouvir uma música, é bombardeado por letras promíscuas que comparam o ser humano a um felino em fase do cio, e ao desligá-lo e ligar a televisão em busca de entretenimento, encontrar uma forte tendência de relacionar todo ato de humor ou de enredo com uma visão distorcida da sexualidade humana, que não fique assustado, isso é considerado cultura! Ou seja, quando um sujeito vem da rua, chegando vivo e tranquilo em casa, constata-se que não há violência, mas, entrando em sua residência ou ainda fora dela, a violência se dá nas propagandas subliminares,nas frases que induzem um pensamento único e padronizado a todos, nas cenas de televisão que, com  a desculpa de “mostrarem a realidade” induzem novos tipos de comportamento, na internet, que massacra seus clientes com suas modinhas quase diárias.
E por isso constatamos que há sim uma violência, e nisso refletimos sobre a segunda pergunta: o que fazer quando a violência se dá num âmbito que é inalcançável pela visão humana? Quando o ato que destrói e que corrói está além do que os olhos podem ver? Digo isso porque se calou na humanidade aquela voz da consciência que, na  escuridão silenciosa de sua alma, lhe recordava da exigência de fugir do erro e buscar a verdade. E no lugar dela, desenvolveu-se uma grande sensibilidade pela opinião alheia, pela crítica do grupo, pelas conveniências sociais.
Diante disso, é interessante notar que nos tornamos, de algumas décadas para cá, um povo domesticado pelas modas que nos impõem alguns grupos, um povo que perde suas raízes por ser induzido a um “avanço”, avanço este que tem como preço a perda da identidade e  da cultura.  E assim, numa das poucas épocas onde se fala tanto em liberdade, autonomia, etc. o que vemos nas ruas são multidões se comportando ao sabor e à maneira dos “formadores de postura e opinião”, encontrados nas centrais de grandes redes virtuais, diante das câmeras de um canal de televisão, nos cenários de gravação das novidades que irão dos estúdios às ruas, etc.
E assim, em meio ao grito de liberdade, visível e audível, se esconde uma violência, invisível e imperceptível, que age de modo indireto, indutor, subliminar, mascarando-se como algo positivo e instrumento de avanço social. E, na era da liberdade, poucos são realmente livres porque estão presos nas ditaduras mais diversas. Dentre elas, a ditadura do consumo: ter, ter, ter, como se fôssemos eternos, a ditadura da beleza perfeccionista, onde um corpo sarado e perfeito é o critério de felicidade e relevância social, como se aquele corpinho um dia não fosse envelhecer, enrugar-se e terminar  em cinzas em um caixão,  a  ditadura da malícia, onde tudo é levado para o apelo sexual, desde uma música no rádio até um programinha infantil na TV.
E assim, vivemos na era da liberdade, mas numa liberdade pobre! Pobre de valores culturais, espirituais e intelectuais e ainda convencidos de que isso é ser avançado, é ser moderno!
E assim, finalizo afirmando que, se a vida só vale a pena por essas misérias que estão nos induzindo a crer que é o que vale a pena nessa existência, então essa vida não vale nada."


Robson Dias Correa

Estudante de Filosofia - UNIFRA

Santa Maria- RS







sábado, 9 de janeiro de 2016

"Nunca tivemos uma geração tão triste"

 

Augusto Cury, o famoso psiquiatra que tem livros publicados em mais de 70 países e dá palestras para multidões no Brasil e lá fora, lançou recentemente uma versão para crianças e adolescentes do seu best-seller Ansiedade - Como Enfrentar o Mal do Século.  O autor deu algumas entrevistas falando sobre a forma de que as crianças dos dias de hoje estão sendo educadas, também não poupou críticas com relação a maneira que a família e a escola tem educado esses jovens. 

Excesso de estímulos
“Estamos assistindo ao assassinato coletivo da infância das crianças e da juventude dos adolescentes no mundo todo. Nós alteramos o ritmo de construção dos pensamentos por meio do excesso de estímulos, sejam presentes a todo momento, seja acesso ilimitado a smartphones, redes sociais, jogos de videogame ou excesso de TV. Eles estão perdendo as habilidades sócio-emocionais mais importantes: se colocar no lugar do outro, pensar antes de agir, expor e não impor as ideias, aprender a arte de agradecer. É preciso ensiná-los a proteger a emoção para que fiquem livres de transtornos psíquicos. Eles necessitam  gerenciar os pensamentos para prevenir a ansiedade. Ter consciência crítica e desenvolver a concentração. Aprender a não agir pela reação, no esquema 'bateu, levou', e a desenvolver altruísmo e generosidade.”

Geração triste
“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais.”

Dor compartilhada
“É fundamental que as crianças aprendam a elaborar as experiências. Por exemplo, diante de uma perda ou dificuldade, é necessário que tenham uma assimilação profunda do que houve e aprender com aquilo. Como ajudá-las nesse processo? Os pais precisam falar de suas lágrimas, suas dificuldades, seus fracassos. Em vez disso, pai e mãe deixam os filhos no tablet, no smartphone, e os colocam em escolas de tempo integral. Pais que só dão produtos para os seus filhos, mas são incapazes de transmitir sua história, transformam seres humanos em consumidores. É preciso sentar e conversar: ‘Filho, eu também fracassei, também passei por dores, também fui rejeitado. Houve momentos em que chorei’. Quando os pais cruzam seu mundo com os dos filhos, formam-se arquivos saudáveis poderosos em sua mente, que eu chamo de janelas light: memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores perdas e frustrações.”

Intimidade
“Pais que não cruzam seu mundo com o dos filhos e só atuam como manuais de regras estão aptos a lidar com máquinas. É preciso criar uma intimidade real com os pequenos, uma empatia verdadeira. A família não pode só criticar comportamentos, apontar falhas. A emoção deve ser transmitida na relação. Os pais devem ser os melhores brinquedos dos seus filhos. A nutrição emocional é importante mesmo que não se tenha tempo, o tempo precisa ser qualitativo. Quinze minutos na semana podem valer por um ano. Pais têm que ser mestres da vida dos filhos. As escolas também precisam mudar. São muito cartesianas, ensinam raciocínio e pensamento lógico, mas se esquecem das habilidades sócio-emocionais.”

Mais brincadeira, menos informação
“Criança tem que ter infância. Precisa brincar, e não ficar com uma agenda pré-estabelecida o tempo todo, com aulas variadas. É importante que criem brincadeiras, desenvolvendo a criatividade. Hoje, uma criança de sete anos tem mais informação do que um imperador romano. São informações desacompanhadas de conhecimento. Os pais podem e devem impor limites ao tempo que os filhos passam em frente às telas. Sugiro duas horas por dia. Se você não colocar limite, eles vão desenvolver uma emoção viciante, precisando de cada vez mais para sentir cada vez menos: vão deixar de refletir, se interiorizar, brincar e contemplar o belo.”

Parabéns!
“Em vez de apontar falhas, os pais devem promover os acertos. Todos os dias, filhos e alunos têm pequenos acertos e atitudes inteligentes. Pais que só criticam e educadores que só constrangem provocam timidez, insegurança, dificuldade em empreender. Os educadores precisam ser carismáticos, promover os seus educandos. Assim, o filho e o aluno vão ter o prazer de receber o elogio. Isso não tem ocorrido. O ser humano tem apontado comportamentos errados e não promovido características saudáveis.”

Conselho final para os pais
“Vejo pais que reclamam de tudo e de todos, não sabem ouvir não, não sabem trabalhar as perdas. São adultos, mas com idade emocional não desenvolvida. Para atuar como verdadeiros mestres, pai e mãe precisam estar equilibrados emocionalmente. Devem desligar o celular no fim de semana e ser pais. Muitos são viciados em smartphones, não conseguem se desconectar. Como vão ensinar os seus filhos e fazer pausas e contemplar a vida? Se os adultos têm o que eu chamo de síndrome do pensamento acelerado, que é viver sem conseguir aquietar e mente, como vão ajudar seus filhos a diminuírem a ansiedade?”


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

SER PESSOA: PROCESSO DE DEVOLUÇÃO



'O desafio de ser pessoa'. O termo 'pessoa' sempre foi muito usado, principalmente pelos gregos. 'Pessoa', no contexto grego, significa a máscara que o ator usava para interpretar no teatro.

Eu tenho que ser eu. Uma pessoa só pode ser pessoa, se ela é dona de si. Nós temos que tomar posse do que somos. Quantas coisas você possui e ainda não tomou posse? O amor é a capacidade de descobrir no outro o que ele ainda não viu que tem. É como se você tivesse uma grande propriedade e não tivesse a capacidade de andar por ela para demarcá-la, e não a conhece na totalidade. Mas aos poucos vai sendo dono daquilo que já é seu.

Ser pessoa é ser dono de você mesmo, e saber lidar com seu jeito de ser, de amar, de sentir, de pensar, de ter suas limitações e saber o que você pode. Quantas vezes você se dispôs a ser o que não era, dizendo 'sim' onde era para dizer 'não'? Você não teve consciência do que não podia. É o que Jesus sempre fez com as pessoas. Fazendo-as tomarem posse do próprio território, de si mesmas. 'Eu sou dono de mim, e não abro mão'.

Quem é o 'prefeito' de sua 'cidade'? Tenha coragem de dizer aos inimigos: 'Aqui nesta cidade tem prefeito (eu), e aqui não tem lugar para os bandidos. Eu não abro mão do meu território'. E é aqui que Deus trabalha em nós para celebrar a Eucaristia, é para Deus que nos entregamos de novo. Eu sou pessoa, e me recebo de Deus o tempo todo. E Ele diz: "Cuide do que você é. Você não tem o direito de deixar as pessoas lhe roubar". E tem pessoas que te 'devolvem'. A experiência com Deus sempre diz: "Eu lhe devolvo".

Não tenha preguiça de conhecer seu 'território' e saber quem você é realmente. O total desconhecimento de si, não pode acontecer. A pessoa que não é 'pessoa', não tem assunto e sabe tudo o que acontece na vida do outro, mas não sabe de si mesma.

As pessoas que vivem preocupadas com as novelas da vida, se desgastam com pessoas que nem conhecem. Não é fácil compreender o território humano. Se investigar e conhecer o 'porquê' de algumas reações, o 'porquê' aquela raiva foi tão grande naquela hora, o 'porquê' eu explodi com aquela pessoa... É descobrir o 'porque' do afeto que tenho dentro de mim. Você deixa de ser explosiva demais quando toma posse do que é. Tudo isso porque você está em processo de construção. Deveríamos estar com placas dizendo: 'Estamos em obra, cuidado!' É o seu processo de 'feitura' de ser pessoa.

Não tenha preguiça de conhecer seu ‘território’ e saber quem você é realmente.

Enquanto você viver haverá partes deste 'território' para conhecer. Tantas coisas nos foram entregues, mas se elas não vêm à tona, e nem as investigarmos, tudo o que temos dentro de nós fica sem uso. Quanta coisa preciosa você tem dentro de você e não sabe por quê fica só na superficialidade do conhecimento de si? Quando é que você sabe que uma pessoa se ama? Você só sabe que ela se ama quando ela se cuida, quando tem disciplina.

Que você não morra com seus valores ‘engavetados’, pois Deus lhe dá talentos para que você os use, e não para deixar guardado.

'Eu sou um dom de Deus'. Todos os dias há alguma coisa para você ir atrás e descobrir. Você se recebe de Deus, Ele que me deu esta obra todos os dias. Temos que ser bom naquilo que a gente faz para nos colocarmos à serviço dos que necessitam. Uma pessoa só é pessoa quando se disponibiliza aos outros. Aquilo que recebo de Deus coloco à disposição dos outros. E nisso temos a integração de uma personalidade saudável.

Ser pessoa não é só contemplar o que sou e tenho de melhor, mas ser pessoa é descobrir e cultivar o que tenho de melhor para que outros sejam beneficiados. Como Jesus fazia o tempo todo em sua capacidade de se doar e ensinar, é preciso se doar também. É necessário tomar cuidado para outra pessoa não tomar posse do que você é, pois a partir daí você não terá mais domínio sobre o que é seu. Se não sou capaz de tomar conta de mim, perco meus talentos e não me possuo mais. Quantas vezes você foi machucado nesta vida e pessoas lhe roubaram? Quando não me possuo, tenho dificuldade de ser para o outro, e corro o risco de não ser o que devo ser.

Estabeleça o seu limite. Seja firme!


                                                                                                                Pe. Fábio de Melo